As energias renováveis são baratas

A eletricidade vai subir 2,7%, por comparação com os preços de 2025, anunciou a ERSE (Entidade Reguladora dos Preços de Eletricidade), no passado dia 15 de setembro, atualizando assim as tarifas do mercado regulado para ter em conta os aumentos dos custos de produção. É uma boa notícia, pois é um aumento bem abaixo da inflação, mas, como infelizmente acontece geralmente com as boas notícias, não se falou muito disso.

Só se fala no enorme aumento do preço dos combustíveis, em resultado do bloqueio do estreito de Ormuz. No caso do gasóleo simples, por exemplo, o preço ao consumidor era de cerca de 1,6 euros/litro até fevereiro de 2026, tendo subido a partir de março até atingir cerca de 2,2 euros/litro em setembro, um aumento de 37%. As consequências na inflação, nas subidas das taxas de juro e no abrandamento da atividade económica são já bem visíveis.

Repare-se no contraste: o gasóleo aumenta cerca de 13 vezes mais do que a eletricidade! 

Este quase milagre resulta de um efeito muito simples: graças ao grande desenvolvimento das energias renováveis, a produção de eletricidade já pouco depende do petróleo.

Com efeito, embora nos últimos 30 anos (1995 a 2024) a produção total de energia elétrica em Portugal tenha aumentado imenso (53%), a produção de energia renovável (hídrica, eólica, fotovoltaica, biomassa e geotérmica) aumentou ainda mais depressa, passando de 29% para 86% do total.

Há trinta anos, o enorme aumento do preço do petróleo teria impacto direto no preço da eletricidade. Agora, como pouca eletricidade é gerada a partir do petróleo em Portugal, o impacto do fecho do estreito de Ormuz é pequeno.

Há outros motivos de satisfação.

As energias renováveis são quase neutras em relação ao clima, pois emitem muito pouco carbono, em comparação com o petróleo e o carvão. Os efeitos das alterações climáticas são já muito visíveis em Portugal; se continuássemos baseados no petróleo e carvão estaríamos a dar uma contribuição importante para piorar ainda mais a situação.

As energias renováveis são de produção local; não precisamos de comprar combustíveis a outros, pois o sol, o vento, a água estão disponíveis em Portugal sem custos. Se o nível de produção de renováveis estivesse como há 30 anos, teríamos de importar mais cerca de 230 milhões de barris de petróleo (ou o equivalente em carvão ou gás), que nos custaria cerca de 20 mil milhões de euros (muito mais do que Portugal gasta com a saúde), e teríamos um défice comercial de pelo menos mais 5% do PIB. Seria um desastre económico para Portugal.

As energias renováveis são resilientes, por serem locais. O petróleo não é apenas caro - vem de longe, portanto pode não chegar, por causa de guerras, bloqueios, quebras de cadeias logísticas. Portugal é muito mais robusto se depender pouco de materiais essenciais que vêm de longe.

Lembro-me bem do que há 30 anos diziam dos ambientalistas como eu que defendiam a evolução para as energias renováveis - eram gente com a cabeça na Lua, que não sabia fazer contas, pois as energias renováveis eram caras e economicamente inviáveis. Como era para mim óbvio, a realidade desmentiu-os. O mais extraordinário é atualmente ainda haver alguns, felizmente já poucos, que continuam a pensar que o petróleo é mais barato do que o vento ou o sol.

(texto publicado no Diário de Coimbra de 2026-10-02)

 
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