Estratégia oficial russa para apagar a Ucrânia

(Texto publicado no Diário de Coimbra de 2026/01/02)

Se houver um acordo de cessar-fogo na Ucrânia, ou até um tratado de paz, o que acontecerá aos ucranianos nas zonas ocupadas pelos russos? Será que podem esperar respeito pela sua identidade nacional, cultural, linguística? Os que defendem o fim da guerra a qualquer custo, mesmo cedendo a exigências russas abusivas, partem do princípio de que, caladas as armas, os ucranianos que vivam nas zonas ocupadas poderão ter uma vida digna, em paz.

Infelizmente não é realista esperar isso, dado o que já tem estado a acontecer: a incorporação forçada no exército russo dos ucranianos das zonas ocupadas; a transferência forçada de crianças que levou à ordem de captura, dada pelo Tribunal Penal Internacional, contra o Vladimir Putin; a mudança forçada de nacionalidade por exemplo negando acesso ao sistema de saúde a quem não a aceitar. É também um péssimo indicador o facto de a Rússia recusar por inteiro qualquer acesso de instituições humanitárias como a Cruz Vermelha, Médicos sem Fronteiras, etc.

Acontece que agora a estratégia de russificação passou a estar na lei, com a aprovação por Putin da "Estratégia para a Política Nacional do Estado da Federação Russa até 2036" (Decreto do Presidente n.º 858, de 25 de novembro de 2025), já em vigor.

Esta estratégia remete para uma "Lista unificada dos povos indígenas minoritários da Federação Russa" (Resolução do Governo nº 255 de 2000, atualizada pela resolução nº 2356 de 2021, portanto já depois da anexação da Crimeia), onde nem os ucranianos nem os tártaros da Crimeia surgem, o que mostra que, oficialmente, nem sequer se lhes reconhece identidade própria.

Um dos objetivos da estratégia é "reforçar o estatuto da língua russa como língua oficial da Federação Russa, como língua dos povos constituintes e língua materna, e como língua de comunicação interétnica". Não só mais nenhuma língua tem o estatuto de língua oficial, como é objetivo que o russo seja a língua materna de todos, e única língua de comunicação interétnica. Isto é, forçam o russo em todos os cidadãos ocupados, como aliás têm vindo a fazer ao longo dos séculos, para depois dizerem que todos os que falam russo são obrigatoriamente russos. É um argumento inacreditável que quereria dizer que, por exemplo, todos os brasileiros, angolanos, moçambicanos, etc, são portugueses porque falam português, e que todos os australianos, americanos, etc, são ingleses porque falam inglês. 

Estabelece ainda a dita estratégia que "o nível de identidade cívica de toda a Rússia (autoconsciência cívica) deve ser pelo menos 95 por cento". Isto é, 95% de todos os habitantes das zonas ocupadas têm de se sentir russos. A assimilação forçada é quantificada!

A estratégia tem menções explícitas às zonas ocupadas da Ucrânia, dizendo por exemplo que "​​​​As especificidades da implementação da política nacional estatal em Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson são determinadas pela necessidade de tomar medidas adicionais para fortalecer a identidade cívica pan-russa (autoconsciência cívica) e a harmonia interétnica, para introduzir mecanismos para o funcionamento da língua russa como língua oficial da Federação Russa e das línguas dos povos da Federação Russa, para combater as manifestações do neonazismo e as tentativas de falsificar a história, para eliminar as consequências da disseminação da propaganda anti-russa, do nacionalismo e do ódio religioso, e para realizar eventos organizacionais, jurídicos, informativos, educativos e etnoculturais." Qualquer observador imparcial sabe que esta terminologia significa o total apagamento cultural, político, religioso, linguístico, dos ucranianos ocupados.

Isto é, o programa de assimilação forçada das populações ocupadas já está publicado no Diário da República russo, e já está em vigor. Que "paz" é esta?

 
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