Proteger os jovens das redes sociais viciantes

(texto publicado no Diário de Coimbra de 6 de março de 2026)

Todos os pais têm a preocupação de proteger os filhos das drogas, pois sabem como esse vício os pode destruir. Essa proteção é particularmente importante durante a adolescência, altura em que passam muito tempo longe da proteção dos pais e dos professores mas ainda não têm espírito crítico suficiente para resistir à pressão social para experimentar.

O que ainda não é do conhecimento comum é que as redes sociais são parecidas com as drogas. São viciantes: mostram continuamente os vídeos e as publicações que mais atraem a atenção dos utilizadores, sem nunca acabar, para os prender ao ecrã. Esses vídeos não são escolhidos ao acaso - são de tipos similares àqueles que o utilizador já viu, e dos quais gostou. Como sabem as redes sociais do que cada um gosta? Muitas vezes são as pessoas que explicitamente o dizem, colocando um "like", mas isso nem é preciso: as redes sociais vêem por exemplo quais as publicações que cada utilizador observa durante mais tempo, ou comenta mais frequentemente, e deduzem que é esse tipo que desperta mais a atenção daquela pessoa, e mostram-lhe outros parecidos.

Porque é que as redes sociais querem que lá passemos muito tempo? Porque assim fazem mais dinheiro. Se estivermos nas redes sociais mais tempo, mais anúncios nos podem mostrar, pois a publicidade é a sua principal fonte de receita. Mas, mais do que isso, podem fazer anúncios dirigidos, isto é, se alguém quer vender sapatos, mostram o anuncio a quem costuma ficar a ver vídeos sobre sapatos, roupa, moda. Se querem vender comida para gatos, mostram os anúncios a quem passa mais tempo a ver fotos e vídeos de gatos. Se querem vender viagens, mostram os anúncios a quem vê vídeos com esse tema.

Isto é, as redes sociais traçam um perfil dos interesses de cada um, e depois vendem aos anunciantes a oportunidade de fazerem publicidade diretamente às pessoas mais recetivas ao produto que querem vender. É a chamada publicidade dirigida, que é muitíssimo mais eficaz do que anúncios da televisão, que apanham toda a gente, mesmo os que não se interessam pelo objeto do anúncio.

Pode-se contrapor que os efeitos não são os mesmos do vício das drogas. São de facto diferentes, mas têm muitas semelhanças. Por exemplo, o desempenho na escola sofre bastante, porque os adolescentes não desenvolvem a capacidade de se concentrar, essencial para qualquer aprendizagem, e arrastam-se no sistema de ensino. As redes sociais promovem o salto contínuo de assunto em assunto, não se passando mais do que um par de minutos em cada; o estudo produtivo exige trabalho no mesmo assunto durante períodos muito mais longos, por vezes várias horas. Estar atento numa aula também exige concentração durante períodos longos. Os viciados nas redes sociais ficam incapazes de o fazer. 

Ver a realidade através das redes é igualmente grave, quer porque a capacidade de interação social baixa muito (quantas vezes vemos dois jovens a "conversar", passando mais tempo a olhar para os telemóveis do que a falar um com o outro), quer porque, vivendo num mundo virtual, confundem a ficção com a realidade. Para as redes sociais, um vídeo corresponder à realidade ou ser uma fantasia pouco importa, pois o que interessa é que prenda a atenção.

Por todas estas razões aplaudo a aprovação na Assembleia da República, para já apenas na generalidade, de um projeto de lei que visa impedir o acesso às redes sociais a jovens com menos de 16 anos. A Austrália já o decidiu, e vários países europeus estão a discutir leis nesse sentido, como a Alemanha, França, Espanha e Reino Unido. A União Europeia já aprovou a Diretiva (Digital Services Act) que o permite.

Há muitos detalhes a acertar, mas o princípio de proteger os jovens do ataque que as redes sociais lhes fazem é uma preocupação importante de uma sociedade saudável. 

 
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