A energia nuclear não é competitiva

(Texto publicado no Diário de Coimbra de 2026-05-01)

No atual contexto de altos preços do petróleo e de emergência climática surgem com frequência pessoas a defender que a solução são as centrais nucleares. Isto apesar de no passado dia 26 de abril terem passado 40 anos do acidente de Chornobyl, que continua a vedar vastas extensões de território aos humanos.

É por isso muito interessante analisar o relatório, divulgado há menos de um mês, da Comissão de Energia Nuclear, nomeada há dois anos pelo Estado Norueguês para estudar se a energia nuclear para geração de eletricidade deve ser introduzida na Noruega, país que, como Portugal, não dispõe atualmente de qualquer central nuclear. 

A recomendação dessa Comissão é clara, e vai contra a construção de centrais nucleares, principalmente porque se trata de uma solução muito cara, que não é economicamente competitiva.

A Comissão considera que os múltiplos riscos inerentes ao funcionamento de uma central nuclear podem ser controlados, mas tal exige um processo muito complexo, muito exigente, pelo que construir uma central demora pelo menos 20 anos. São além disso absurdamente caras: construir uma central de 2.000 MW custa entre 20 e 35 mil milhões de euros (centrais mais pequenas são ainda menos rentáveis).

O problema dos resíduos é particularmente grave: é necessário um depósito com capacidade para guardar os resíduos durante 100 mil anos (uma enormidade: a escrita, base da nossa civilização, foi descoberta há apenas cerca de 6.000 anos ...)

A Comissão chama a atenção para o facto de que, ao demorar tanto tempo para ser construída, uma central nuclear pouco pode contribuir para a luta climática: não podemos esperar 20 anos para atuar na redução das emissões de carbono.

Outra conclusão da Comissão é que o Estado tem de desenvolver complexos processos de licenciamento e fiscalização. Questiona se tal gasto se justifica, perante as alternativas renováveis existentes. Afirma ainda que não se justifica qualquer subsídio estatal para a construção das centrais nucleares, pois as alternativas não precisam desses subsídios. Refere, no entanto, que não conhece nenhuma central nuclear atualmente planeada ou em construção na Europa Ocidental que não receba auxílios estatais relevantes, pois são projetos tão complexos que, com facilidade, surgem problemas de grande dimensão, que acabam por ser pagos pelos Estados.

As centrais nucleares criam, além disso, fortes dependências internacionais, por exemplo porque o enriquecimento de urânio está atualmente concentrado em quatro empresas: 

Rosatom (Russia), Urenco (UK, Holanda e Alemanha), Orano (França) e CNNC (China). Não é por acaso que a Rosatom é uma das poucas empresas russas de grande dimensão que não está sujeita a sanções por causa da invasão da Ucrânia ...

Estas conclusões parecem-me inteiramente aplicáveis a Portugal. A vantagem portuguesa em relação à Noruega é a de possuir minas de urânio, algo que não existe na Noruega, mas, como refiro atrás, o enriquecimento teria sempre se ser feito no estrangeiro, para além de que Portugal, um país menos organizado que a Noruega, teria uma probabilidade muito superior de ter problemas (incluindo corrupção) na construção e funcionamento das centrais, que acabariam por ser pagos por todos nós.

A solução, rápida e competitiva, quer para a independência energética do país quer para a luta climática, passa pelas energias renováveis (eólica, fotovoltaica, ondas, etc), com uma forte expansão da capacidade de armazenamento, principalmente através de barragens reversíveis, como foi feito na barragem da Aguieira, e mais recentemente no Alto Tâmega.

 
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