Coimbra afinal tem futuro
(texto publicado no Diário de Coimbra de 1 de agosto de 2025)
Há largos anos conversava com um amigo meu sobre o facto de todos os casais da minha idade estarem a ver alguns (ou até todos) dos seus filhos a sair de Coimbra depois de terminarem o seu curso. O problema de Coimbra era que os jovens não viam a cidade como um local de futuro, dizia ele. Viam-na como uma cidade com grande passado, mas presa nas glórias antigas. Coimbra não era vista como um sítio com a dinâmica necessária para que as perspetivas de construir uma carreira profissional e de constituir família fossem positivas.
Esta observação fez-me refletir que, de facto, eu próprio, se ao iniciar a minha vida profissional e familiar tivesse tido esse entendimento, também me teria ido embora. Mas em 1980, quando acabei o curso, Portugal, e Coimbra, eram locais cheios de oportunidades, saídos há pouco da revolução libertadora do 25 de abril, e por isso fiquei.
Não há nada mais genuíno do que as escolhas que cada um faz na sua vida, pois refletem o seu entendimento verdadeiro sobre as opções que têm pela frente. Por isso, olhar para a evolução da faixa etária daqueles que estão a sair dos bancos da escola é o melhor indicador sobre as perspetivas futuras de um local, pois reflete as reais decisões de vida das pessoas. Não é conversa de conveniência, simpática, ou um inquérito de opinião onde as pessoas nem sempre exprimem o que verdadeiramente sentem.
No caso de Coimbra, a evolução da faixa etária dos 25 aos 34 anos é de facto muito reveladora. Em 1991, que é o primeiro ano para o qual o Instituto Nacional de Estatística tem dados de residentes por faixa etária e por concelho, Coimbra tinha 21.463 residentes nessas idades. Eram tempos de otimismo, e esse valor subiu sucessivamente até atingir um pico de 22.476 em 2002. É uma subida pequena, de apenas 1.013, mas é uma subida. Infelizmente esse otimismo perdeu-se e a evolução passou a ser negativa, atingindo o mínimo em 2020, com 15.186. São menos 7.290 jovens, uma perda brutal de um terço dos residentes nessas idades. Em termos demográficos, perder um terço em 20 anos é uma catástrofe.
A observação do meu amigo, que relato acima, estava assim fortemente refletida nos dados demográficos e era, portanto, inteiramente verdadeira.
Felizmente, nos últimos anos esta tendência inverteu-se. A evolução da faixa etária dos 25 aos 34 anos passou a positiva e, em 2024, Coimbra teve 16.953 residentes nessa faixa, mais 1.767 do que em 2020, um aumento de 12%. É uma variação significativa; ainda falta bastante para se voltar ao nível de 2002, mas a trajetória é a certa. A manter-se a velocidade de variação, dentro de aproximadamente seis anos estaremos de novo nesse patamar.
Qual a razão desta evolução positiva? No meu entendimento a explicação é inequívoca: foi a criação de emprego. As pessoas fixam-se onde encontram um emprego que lhes permita uma vida digna. A política que tem sido seguida nos últimos anos, de atração ativa de empresas com grande capacidade de criação de emprego (são bons exemplos a Airbus, PricewaterhouseCoopers (PwC), Deloitte, Constellation, Accenture, Génération), que já criaram cerca de 500 empregos, valor que deverá subir para 1000 dentro de um ano, é a responsável principal por esta evolução positiva do concelho de Coimbra. Diretamente pelas pessoas que contratam, mas também indiretamente pelo clima positivo que criam; muitos outros empresários locais se lançam a novos investimentos, também criadores de emprego, porque acreditam que a atividade económica vai aumentar. Quando todos acreditamos, e nos movemos coletivamente numa direção de desenvolvimento, as coisas acontecem.
É por tudo isso que concluo que Coimbra afinal tem futuro. Os dados demográficos demonstram-no, e o otimismo que vejo nas conversas de tantos confirmam-no.
Ficheiros
- Abrir Coimbra afinal tem futuro 2.0 MB