A guerra mudou mesmo e Portugal ainda não
(texto publicado no Diário de Coimbra de 3 de abril de 2026)
Estamos a assistir, na guerra do Irão, a um espetáculo inaudito: as forças armadas mais poderosas do mundo são incapazes de evitar ataques de drones baratos a alvos estratégicos. Não conseguem proteger os petroleiros que passam pelo estreito de Ormuz e, em resultado disso, a economia mundial está em crise.
Temo que as Forças Armadas Portuguesas ainda não tenham retirado deste facto as lições necessárias. Estamos a endividar-nos em milhares de milhões de euros para comprar tanques, fragatas, e outro equipamento pesado, apesar de tanto a guerra no Golfo Pérsico como a guerra da Ucrânia mostrarem que a sua importância é cada vez menor. Cada fragata custa cerca de 1000 milhões de euros, mas bastam poucos drones marítimos para as destruir em pouco tempo, como os ucranianos fizeram com a frota russa do Mar Negro.
A guerra atualmente é dominada pelos drones baratos, que evoluíram imenso na guerra da Ucrânia. São produzidos aos milhares por dia, e não podem obviamente ser abatidos de forma continuada por mísseis que custam milhões de euros cada um, porque tal é economicamente insustentável, e porque esses mísseis são produzidos em pequenas quantidades, de apenas algumas centenas por ano. Na Ucrânia, estima-se que os dois lados, em conjunto, produzam muito mais de dez milhões de drones por ano.
Portugal devia apostar nos drones, quer aéreos quer marítimos, com capacidade de funcionamento autónomo e muito versáteis, e na capacidade de produção que permita aumentar rapidamente as quantidades produzidas em caso de necessidade. Seria além disso uma maneira de ajudar a desenvolver a indústria nacional, pois a produção das fragatas e dos tanques não tem quase nenhuma participação da indústria portuguesa. São milhares de milhões enviados para o exterior, quase sem retorno. A lei de programação militar, que serve de base a todas estas aquisições, está obsoleta, pois foi elaborada para a guerra do passado, antes da guerra da Ucrânia e do Irão, e não para a guerra do futuro.
Estes erros pagam-se caro. Os Estados Unidos da América também não souberam adaptar-se. Foram para o Golfo Pérsico sem mecanismos eficazes para contrapor aos drones, e agora Donald Trump faz afirmações patéticas sobre a sua pretensa vitória na guerra, quando na realidade o preço da gasolina sobe e as bolsas descem, precisamente porque a guerra é dominada pelos drones baratos, mas muito numerosos, e os EUA não os sabem combater.
Trump prometeu não começar nenhuma guerra, por isso chama à guerra do Irão apenas uma "operação militar". Tal como Putin fez ao invadir a Ucrânia, através de uma "operação militar especial". O ditador e o candidato a ditador seguem caminhos próximos, e vão ter resultados similares. Felizmente nos EUA ainda há eleições sérias, e Trump será, tudo indica, copiosamente derrotado nas próximas. Isto, se não conseguir manipulá-las, como está a tentar por todas as formas, também aqui seguindo os passos do seu amigo Putin. Mas estou confiante em que, ao contrário da Rússia, as instituições democráticas dos EUA vão conseguir proteger o sistema eleitoral.
Ficheiros
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