Wildberries

(texto publicado no Diário de Coimbra de 2026/08/07)

Wildberries é o nome da principal cadeia russa de venda online, similar à Amazon (que não opera na Rússia). Nas últimas semanas os ucranianos têm vindo a destruir sistematicamente os grandes armazéns logísticos dessa empresa; estima-se que mais de metade da área útil tenha já ardido. O ataque a estes centros tem em vista criar dificuldades de abastecimento à tropa russa, embora não se saiba qual a importância deste canal de distribuição, que parece ser relevante mas não decisivo.

O objetivo principal destes ataques, a meu ver, é levar a guerra à vida de todos os russos, pois estima-se que perto de 90% deles recorre a compras online, o que se compreende num país tão grande e com populações tão dispersas, onde não é possível ter lojas físicas em todo o lado. Até aqui, a guerra para os russos era essencialmente um assunto televisivo, que não os afetava diretamente, pois só os ucranianos sentiam o que é ser bombardeado todos os dias. Agora perceberam que a guerra, afinal, afeta todos.

Este efeito já começava a ocorrer com os ataques ucranianos às refinarias russas, que se calcula tenham baixado os níveis de produção para valores do século passado, provocando grandes aumentos de preço e muita escassez. A Rússia passou de país exportador para país importador de gasolina e gasóleo, o que é espantoso. Ao ter de passar muito tempo em filas para abastecer os seus carros, o cidadão russo sente na pele que a guerra não é um evento longínquo. Espera-se também uma enorme quebra na produção agrícola, pois sem gasóleo para os tratores a colheita é muito reduzida; daqui a poucos meses poderá começar a haver escassez generalizada de produtos alimentares e aí a população vai sentir a guerra diretamente no seu estômago. 

As sanções a que a Rússia está sujeita também atingem os cidadãos, pois muitos produtos e serviços deixaram de estar disponíveis. Todavia, como a China se substituiu aos países ocidentais no abastecimento à Rússia, as sanções acabaram por afetar pouco o dia-a-dia dos russos.

Já o isolamento logístico da Crimeia, o principal destino turístico dos russos, tem tido um efeito importante na opinião pública, em particular na classe média que constitui a principal base de apoio de Putin. A quase impossibilidade de acesso a combustíveis na Crimeia, mas também a escassez de produtos alimentares básicos, para além das interrupções muito prolongadas do fornecimento de energia elétrica e de água, levaram à queda a pique dos fluxos turísticos para a região.

O contrato social de Putin, como de muitos ditadores, é levar os cidadãos a aceitar prescindir dos seus direitos políticos em troca de segurança e de uma vida sem miséria. Começando as privações a ser muito fortes, o contrato social quebra-se e, mesmo com um aparelho repressivo muito forte como existe na Rússia, o regime fica fragilizado e pode cair ou, pelo menos, ser obrigado a fazer concessões, como seja ter de parar a guerra. É nisto que os ucranianos apostam.

O ataque à Wildberries tem outras vertentes. É uma empresa recente, com apenas cerca de 20 anos, que cresceu muito depressa graças a níveis gigantescos de endividamento. Se a Wildberries deixar de conseguir pagar o serviço da sua dívida, todo o sistema financeiro russo ficará em muito maus lençóis. Tendo em conta que a situação financeira da Rússia está tão mal que o Governo suspendeu todas as emissões de dívida pública por falta de compradores, o efeito Wildberries é ainda mais relevante.

Seria excelente que tudo isto resultasse num colapso financeiro da Rússia que a obrigasse a retirar da Ucrânia. É uma possibilidade real, mas depende de a China decidir, ou não, segurar a Rússia.

 
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