O dia de luto dos circassianos

(Texto publicado no Diário de Coimbra de 5 de junho de 2026)

O dia 21 de maio é o dia de luto do povo circassiano, pois foi nesse dia em 1864 que se deu a batalha final da conquista russa da Circássia, depois de uma guerra que durou praticamente um século. Nessa guerra os russos mataram cerca de 2 milhões de circassianos e expulsaram os restantes cerca de milhão e meio, que atualmente se encontram essencialmente em regiões do antigo império otomano, como a Turquia, a Síria e a Jordânia. Permaneceram na sua terra ancestral menos de 5% dos circassianos, em pequenas aldeias remotas de difícil acesso.

Mas onde era a Circássia, país de que quase ninguém ouviu falar em Portugal? Ocupava a margem leste do Mar Negro, entre a Geórgia e o mar de Azov, uma zona atualmente integrada na Federação Russa. É nesta zona que está Sochi, onde decorreram os jogos olímpicos de inverno de 2014 e perto da qual está um dos maiores palácios de Putin, mas também o porto de Novorrossisk, onde se refugiou a frota russa do Mar Negro quando teve de fugir da Crimeia perante a pressão militar ucraniana.

Há relatos de contactos com os circassianos nos tempos dos gregos e dos romanos, mas os achados arqueológicos indicam que a sua presença nessa zona é muito anterior, devendo ter-se iniciado antes da idade de bronze, há cerca de 4 mil anos. A sua língua não pertence à principal família das línguas europeias, a indo-europeia, que inclui desde o português ao russo. A língua circassiana, também chamada Adyge, tem uma densidade anormal de consoantes e muito poucas vogais, e só tardiamente teve forma escrita. 

Os circassianos, estando no noroeste do Cáucaso, tiveram uma vida atribulada, pois eram frequentemente atacados pelo sul, por exemplo pelos otomanos e persas, mas também pelo norte, pelos russos, cossacos e tártaros. Sempre se conseguiram defender, em maior ou menos grau, e sobreviver, até que, em meados do século dezoito, os russos, que na altura não tinham ligação ao Mar Negro, decidiram que se queriam expandir nessa direção e iniciaram uma guerra de desgaste, que durou perto de um século e culminou em 1864 na batalha de Qbaada, atual Krasnaya Polyana, uma localidade nas montanhas a cerca de 50 km de Sochi, onde o exército russo de cerca de 250.000 soldados massacrou o exército final dos circassianos, com apenas à volta de 20 mil pessoas.

A história do povo circassiano merece atenção, não só pela sua riqueza cultural e destino trágico, mas também porque é ilustrativa da forma de atuação da expansão imperial russa, que mantém nos tempos modernos muitos dos seus traços. É bem patente a brutalidade com que trata as populações civis, que não distingue de alvos militares, o esforço organizado para apagar a cultura dos povos conquistados, que vemos por exemplo na proibição da utilização da língua ucraniana nos territórios ocupados, a deportação de pessoas nativas e sua substituição por populações russas transferidas, como vemos em Mariupol e noutras zonas conquistadas, a doutrinação forçada das crianças em grande escala, e a deportação maciça de crianças ucranianas (aspeto que levou ao mandato de captura sobre Vladimir Putin emitido pelo Tribunal Penal Internacional). Lembremos ainda a incorporação forçada no exército russo da população masculina dos territórios ucranianos ocupados, soldados esses que são colocados nas zonas mais perigosas da frente de batalha e onde têm sido mortos em tão grande escala que já só uma minoria dos homens das zonas ocupadas ainda está vivo.

Enquanto os russos não sofrerem uma derrota decisiva, não farão a reflexão necessária para perceber que a sua expansão imperial, agravada por estes seus traços particularmente bárbaros, não tem lugar nos tempos modernos. Esperemos que a guerra da Ucrânia seja esse momento de inflexão na cultura russa.

 
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