O ataque de Marcelo Caetano à Universidade de Coimbra
Em 1960, Marcelo Caetano, então Reitor da Universidade de Lisboa (UL), mandou celebrar uma missa em memória do Infante D.Henrique. Completavam-se 500 anos da morte do Infante, justificação suficiente para tal iniciativa. Mas Marcelo foi mais longe: tratava-se de satisfazer o pedido do Infante de que todos os anos fosse rezada uma missa pela sua alma, em agradecimento pelo facto de, em 1431, ter doado à "Universidade do Estudo" as casas em que ela se instalou, em Lisboa, a partir dessa data.
Ora, durante o século XV, no tempo do Infante, a universidade portuguesa estava localizada em Lisboa; só em 1537 ela foi em definitivo transferida para Coimbra, por decisão do Rei D.João III. Ao ser a Universidade de Lisboa, criada pela República em 1911, a assumir esse compromisso que a "Universidade do Estudo" tinha assumido em 1431, estava a UL a assumir-se como verdadeira herdeira da universidade medieval, retirando essa condição à Universidade de Coimbra (UC).
O Senado da UC, sendo reitor Maximino José de Morais Correia, reuniu logo a seguir e repudiou em termos muito intensos esta movimentação da UL. Lembrou, entre outros aspetos, que nunca tinha deixado de celebrar essa missa até que em 1790 o Governo a proibiu; que essa tradição foi retomada mais tarde mas de novo foi proibida pelo Governo, desta vez em 1910.
O que estava em causa era saber se a Universidade iniciada em Coimbra em 1537 era uma Universidade nova, criada de raiz ao mesmo tempo que a Universidade até aí existente em Lisboa era extinta, ou se se tinha tratado de uma transferência de localização, mas mantendo-se a mesma instituição. É importante referir que D. João III aproveitou a mudança de Lisboa para Coimbra para introduzir fortes alterações no funcionamento da Universidade, na altura muito decadente, facto que dava força à tese da criação em Coimbra de uma universidade nova.
A missa pedida por Marcelo Caetano não chegou a ser celebrada, pois Oliveira Salazar interveio e mandou parar a iniciativa, sem tomar partido, dizendo que "Os historiadores desvendarão o assunto, se puderem, em face dos textos". Acrescentou que "teria pena que a conclusão fosse: a Universidade de Coimbra é do século XVI e a de Lisboa de começos do século XX".
A oportunidade mais importante para esclarecer a questão resultou da iniciativa do Reitor Sampaio da Nóvoa, da UL, quando decide em 2011 encomendar aos historiadores da própria UL uma "História da Universidade de Lisboa", a propósito da comemoração do centenário da fundação da UL pela República, em 1911. O encargo incluía estudar também o período da Universidade medieval. Lembremos que o "Estudo Geral / Universidade do Estudo", desde a sua fundação até à instalação definitiva em Coimbra em 1537, esteve 194 anos em Lisboa e apenas 53 anos em Coimbra. Esta desproporção justifica inteiramente a encomenda do Reitor Sampaio da Nóvoa, e justifica também que, em alguma medida, a UL sinta uma ligação à Universidade que, nesses séculos, esteve em Lisboa.
A equipa encarregada de estudar o período medieval era distinta da equipa encarregada do período moderno, e o resultado final, publicado pela UL em 2013, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, também é separado: dois volumes sobre o século XIX e XX, e um volume sobre a "A Universidade Medieval em Lisboa - séculos XII-XVI", este coordenado pelo Prof. Hermenegildo Fernandes, Professor Catedrático de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, atualmente diretor dessa Faculdade.
A conclusão da análise histórica é inequívoca e favorável à UC: em todas as mudanças de localização desde a sua fundação, sempre se tratou de transferências e nunca de extinção num lado e criação noutro. A atual Universidade de Coimbra é, portanto, a direta herdeira do Estudo Geral fundado no século XIII. Aliás, segundo este estudo da UL, o Estudo Geral nasceu em 1288, e não em 1290, portanto dois anos mais cedo do que, em Coimbra, consideramos ser a data da nossa fundação.
Ficheiros
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